António Lobo Antunes

Prémio "Vida e Obra" da Sociedade Portuguesa de Autores | 2017




O comovente discurso de António Lobo Antunes

Numa rara aparição pública, o escritor contou a história do “senhor Barata”.

George Steiner e António Lobo Antunes, à conversa

A conversa entre o escritor português e George Steiner, promovida pela revista LER e o CLEPUL, disponível no canal do Youtube do CLEPUL. Dia histórico, esse de 9 de Outubro de 2011, em Cambridge.



António Lobo Antunes | Entrevista


Pequena biografia de António Lobo Antunes

É considerado um dos maiores romancistas portugueses da atualidade com cerca de dezena e meia de títulos publicados.

Cursou medicina, com especialização em Psiquiatria.

Desde 1985 que se dedica em exclusivo à escrita, depois de ter desempenhado funções no Hospital Miguel Bombarda, em Lisboa.

A experiência enquanto oficial do exército na guerra do ultramar marcou profundamente os seus primeiros romances.


CRÓNICAS | Visão

Crónica do menino de par de estalos

Devia ser um chato para os outros e era também um chato para mim. Tirando escrever não me apetecia mais nada, e as pessoas eram todas tão óbvias. Portanto fui um aluno péssimo, uma criança esquisita, uma entidade insólita e sofria como um cão com isso. Seguiu-se a pavorosa chumbada do liceu, sem ligar nenhuma às aulas, com notas miseráveis. Como num instante metia meia dúzia de noções no caco aos dezasseis anos matricularam-me na Faculdade de Medicina


A minha relação com a minha mãe foi sempre difícil. Começou logo com o meu nascimento

(sou o filho mais velho)

quando a pus à morte com uma eclampsia

(contava que disse ao meu pai

– Vou morrer

e que o meu pai lhe respondeu

– O que é que queres que eu faça?

o que não a animou por aí além)

e depois fui eu que estive a morrer por se terem esquecido de mim para cuidarem dela: salvou-me uma tia avó

a Avó Galhó

que me encontrou para ali sem respirar, preveniu assustada

– O miúdo, o miúdo

e lá salvaram o miúdo, de cabeça toda torta dos ferros com que o puxaram. Esta foi só a primeira. 
Depois, aos sete ou oito meses resolvi entrar em coma com uma meningite meningocócica que na altura matava muita gente e ainda hoje mata muita gente. Uma criança de oito meses em coma é decerto um espectáculo horrível para qualquer mãe. Com injeções de sulfamidas na barriga conseguiram salvar-me. Quase logo a seguir, aos três anos, uma tuberculose pulmonar. Logo estas três coisas seguidas são de fazer perder a cabeça a um santo. Entretanto assustava-a: aos três meses já tinha não sei quantos dentes, com um ano falava como um Demóstenes, com dois resolvia problemas e, além do português, dizia coisas em espanhol, assustava os meus pais com uma precocidade esquisitíssima, que os levou a pensar, por causa destas proezas de circo, que o meu irmão João era atrasado. Depois, para aí com quatro ou cinco anos ensinou-me a ler, que eu aprendi em três penadas e comecei logo a escrever, coisa que ela não me tinha ensinado. A seguir meteu-me na escola onde me aborrecia de morte porque nada daquilo me interessava. Uma ocasião resolveu espreitar a aula e eu estava sentado ao contrário na carteira a olhar para o tecto. Mais ou menos nessa altura fui mostrar-lhe os meus poemas

(lia os livros do meu pai às escondidas)

garantindo que era o maior poeta do mundo. Não acreditou em mim e fez bem, mas pelo sim pelo não consultou o meu pai. Ele dizia-me versos e eu decorava-os logo. Também não me interessava brincar, os brinquedos irritavam-me, já sabia o que iam dizer-me antes de começarem a falar e portanto ia-me embora antes de acabarem as frases. Em resumo: devia ser um chato para os outros e era também um chato para mim. Tirando escrever não me apetecia mais nada, e as pessoas eram todas tão óbvias. Portanto fui um aluno péssimo, uma criança esquisita, uma entidade insólita e sofria como um cão com isso. Seguiu-se a pavorosa chumbada do liceu, sem ligar nenhuma às aulas, com notas miseráveis. Como num instante metia meia dúzia de noções no caco aos dezasseis anos matricularam-me na Faculdade de Medicina, eu a quem a ideia de continuar a ouvir professores me aborrecia de morte. Na esperança que o meu pai me pusesse a trabalhar numa livraria passei três anos no primeiro ano, sem estudar fosse o que fosse, ocupado com um poema compridíssimo

(todos os meus poemas compridíssimos acabavam no lixo sempre com a mesma frase de despedida

– Ainda não é isto)

e a minha mãe utilizou o tenebroso estratagema de me prometer a carta se eu não chumbasse de modo que passei a fazer todas as cadeiras na primeira época, descobrindo, surpreendido que era mais fácil não reprovar do que reprovar e fiquei médico num instante. Do que me lembro melhor do curso foi um professor dizer para um colega meu

– Que você tenha chegado ao sexto ano da Faculdade não me espanta. O que me surpreende é que tenha feito a quarta classe

eu que ainda sei de cor as serras do sistema galaico-duriense, as estações do ramal da Beira Baixa e os quinze ramos da artéria oftálmica bem como páginas inteiras da lista dos telefones, tudo, como facilmente se percebe, utilíssimo. Depois comecei a gostar de ser médico porque gostava das pessoas. Quando foi do estágio de Pediatria colocaram-me numa enfermaria de meninas e meninos com doenças terminais, e apaixonei-me por um garoto chamado Zé Francisco. Quando morria um adulto vinham dois empregados buscá-lo com uma maca. Como o Zé Francisco tinha cinco anos veio um apenas que o embrulhou num lençol e se foi embora com ele corredor adiante. Um pé do Zé Francisco, fora do tal lençol, 
baloiçava. Decidi:

– É para esse pé que vou escrever

e até hoje. Quando desatei a escrever para um pé comecei, aos poucos, a ser capaz de dizer aquilo que queria. Voltando à minha mãe é evidente que um filho assim é um susto, uma preocupação e uma trabalheira. Não queria estar no lugar dela a aturar uma criatura aberrante: dei-lhe mais ralações que os meus irmãos todos juntos. Achava-me, por exemplo, mentiroso: não era: apenas queria tornar suportável a realidade. Dizia-lhe

– Eu sou diferente

e ela a mirar-me banzada. 
E depois não entendia como é que eu sabia as coisas e não entendia o motivo de ela não entender: era tudo tão óbvio, entrava tudo pelos olhos dentro. Quando Stravinsky, Picasso e Cocteau acabaram uma ópera foram mostrá-la a Diaguilev, o grande empresário russo. Diaguilev colocou o monóculo no olho e pediu-lhes

– Espantem-me

após o que montou a ópera, e os três, Stravinsky, Picasso e Cocteau colocaram-se junto à porta, esperançados, a fim de ouvirem os comentários do público. Os primeiros a sair foram um casal em que o marido dizia à mulher

– Se eu soubesse que era tão estúpido tínhamos trazido as crianças

e desculpem mas já estou farto desta crónica de maneira que me vou embora para o quarto, deitar-me na cama e olhar o tecto. Há alguma coisa mais fascinante do que estar sozinho com um tecto?


António Lobo Antunes: Não tenho muito jeito para viver

Não gosta de conversas, de entrevistas então ainda menos. "A única coisa a que os leitores têm direito são os livros", costuma afirmar António Lobo Antunes, 72 anos. Com isto, o escritor quer dizer que o que importa é a literatura. E também que não se esperem grandes revelações sobre a sua vida privada: "Tenho relações de intimidade com duas ou três pessoas." Do dia a dia de Lobo Antunes há apenas algumas coisas que perpassam nas crónicas que publica na VISÃO, sobretudo nas que se aproximam mais do género diário pessoal.

"Eu só sou o António Lobo Antunes com o papel na mão. Sem o papel na mão, sou um chato."

Não, não é um chato. Apesar de todas as angústias, António Lobo Antunes mantém um sentido de humor de que vale a pena falar. Adora uma pequena história, um diálogo sem nexo, uma incongruência divertida. É capaz de se rir até às lágrimas de uma frase possidónia proferida por alguém, não importa quem. E de voltar a contá-la, acrescentando-lhe uma graça que nem todos poderão gabar-se de possuir. Lobo Antunes tem, isso sim, uma vida rotineira, uma vida de dedicação total à escrita. E, ao mesmo tempo que diz escrever porque não sabe fazer mais nada, também é capaz de dizer que está cansado de tudo.

"No princípio só vinha para aqui escrever. Já estou farto, apetece-me mudar de sítio. Nunca aguento muito tempo numa casa. Passado uns tempos, começo a ficar cansado. Não sei o que é e, sobretudo, não sei até que ponto é que quando estou a dizer que estou farto desta casa, não posso estar a dizer 'estou farto de mim'."

Vem aí uma daquelas alturas. António Lobo Antunes já acabou de escrever a primeira versão do livro (o terceiro depois deste que agora chega às livrarias, Caminho Como uma Casa em Chamas, sendo que, pelo meio, ainda terminou outro, que sairá no próximo ano) e tem em cima da sua mesa de trabalho um monte de folhas A4 que é preciso rever e cortar, cortar e rever. Anda às voltas com uma personagem, uma surda-muda que lá aparece. E lembra-se dela, a propósito de nada, antes de, na Avenida de Roma, entrar para o dentista onde há meses passa duas tardes por semana.

"- Não tenho muito tempo livre.

- E o que faz nos intervalos dos livros, quando não está a escrever?

- Coisas inconfessáveis [risos]."

Os dias estão mais frios e, às quintas-feiras, já não há jantar em casa dos pais, em Benfica. A mãe, Margarida, morreu quase há dois meses; um dos irmãos, Pedro, vai fazer um ano. Na semana passada, pela primeira vez depois da morte da mãe, o seu irmão João, o neurocirurgião, convidou os manos para jantar. Da casa da infância, António Lobo Antunes só quis trazer uma fotografia da mãe. Tem-na, emoldurada, nova, bem vestida e elegante, rodeada de estantes com livros até ao teto, de frases escritas na parede, de quadros pintados por Júlio Pomar.

"Nos hospitais, vi muita gente morrer, mas nunca vi ninguém chamar pelo pai. Agora olho para aquele retrato e penso: é a minha mãe. Só com a morte dela é que me dei conta da sua importância. Há aquela frase de Conrad tão dramaticamente verdadeira: tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento sobre ela que chega tarde demais."

Impressiona qualquer um, a quantidade de frases que António Lobo Antunes sabe de cor. Poemas, bocados de livros, diálogos, histórias. Sim, memória de elefante. As suas entrevistas estão cheias de citações, como se houvesse sempre uma à medida de cada pergunta jornalística. Já se disse aqui que não gosta de entrevistas, "uma espécie de interrogatório policial" (acha o próprio) durante as quais o alegado suspeito não larga a sua personagem (acrescentamos nós). E este, em concreto, diz apenas o que quer. Nos últimos tempos, por exemplo, tem-lhe apetecido dizer mal do Governo.

"Os portugueses merecem muito melhor, merecem muito mais do que o Governo que têm, muito mais do que a maneira como os obrigam a viver. Já ouviu um discurso do primeiro-ministro? A quantidade de erros de português que ele dá... Como é que podemos ser governados por pessoas que nem sequer sabem falar português? Não posso com esta mediocridade, com este vazio de ideias, com esta mentira constante. 'Decisão irrevogável'? O meu pai nunca admitiria que um filho seu voltasse atrás com a palavra. E isto passa-se no mundo inteiro. Há pouco tempo, George Steiner comentou comigo que nenhum dos bons alunos de Cambridge ia para a política: só os medíocres vão para a política."

António Lobo Antunes sobreviveu a mais um cancro. A dois, um em cada pulmão. O médico que o assistiu disse que o curava - e curou. Faz exames regulares, come rebuçados de mentol para ver se consegue reduzir o número de cigarros que ainda fuma. Fica com a boca impregnada de mentol. E continua a fumar. "Dá-me prazer." Tirando as viagens ao estrangeiro, sempre por causa dos livros, pouco sai de casa. Não vai de férias, nem de fim de semana (houve um tempo em que, como os magalas, tirava as tardes de sábado).

"Não tenho muito jeito para viver. E acho que os livros são a minha redenção."

Escreve dez horas por dia, sete dias por semana, com uma disciplina que poucos escritores no mundo devem ter. E a vida só existe assim. Umas vezes, os livros são tudo. Outras vezes, são "só papéis": "O que é isto comparado com a pavorosa realidade de, daqui a nada, estar no dentista?". É capaz de fazer, de enfiada, seis crónicas, "prosinhas", para depois regressar ao livro sem interrupções (o galope é outro, já explicou várias vezes). Almoça num dos cafés do bairro onde vive, o Conde Redondo. O prato do dia e, muitas vezes, uma sobremesa (tem gostos de garoto, pede leite-creme ou mousse de chocolate). Recebe visitas de meia dúzia de pessoas, três filhas, amigos, a editora Maria da Piedade Ferreira. E telefona a outra meia dúzia. De resto, está sempre ali, a escrever. Contabilidade bibliográfica: 25 livros (não quer que lhes chamem romances), mais cinco volumes de crónicas.

"A presença das pessoas não me incomoda nada. Desde que não falem comigo, escrevo em qualquer sítio. A Agustina dizia que, se fosse preciso, até escrevia numa cabina telefónica."

Conta-se que, quando terminava um livro, Iris Murdoch dava uma volta ao quarteirão e começava logo a escrever outro. No caso de António Lobo Antunes, os intervalos entre os livros duram três ou quatro longos meses. Nessas alturas, lê tudo o que apanha. Romance, ensaio, poesia. O que quer voltar a ler, o que gosta muito de ler (Tolstoi e Dostoievski, ditos com a bonita pronúncia que um amigo, professor de literatura russa, lhe ensinou), o que vai saindo, o que lhe mandam. É um grande leitor.

"Quando uma pessoa tem talento, percebe-se logo. Às vezes até na cara se percebe. As pessoas com talento têm uma certa aura. Marlon Brando pode estar metido num cantinho da tela, mas nós só reparamos nele quando olhamos para lá. Uma vez, vi Chagall a pintar os tetos da ópera de Nova Iorque. Era um homem de 80 e tal anos, pequenino, feiíssimo, estava sentado no chão a trabalhar e, no entanto, eu não consegui tirar os olhos dele."

Depois, há um dia em que marca uma data no calendário, para se obrigar a si próprio a começar. Não faz concessões de espécie nenhuma. As personagens não têm nome, os livros não obedecem a um plano organizado, têm o número de páginas que precisam de ter. Nas entrevistas, fala pouco ("Não tenho nada para dizer") e quase nada sobre o livro que é suposto ser promovido. Tem por hábito citar D. Francisco Manuel de Melo: "De que trata o livro? O livro trata do que vai escrito dentro."

"Gosto das pessoas que têm cara de quem vive. E isso não tem a ver com beleza. Normalmente, as pessoas que eu acho atraentes não são bonitas, têm um charme lento, que eu não sei explicar. Acontece-me o mesmo com as cidades. Não gostei nada de Paris nas primeiras vezes que lá fui, mas depois, a pouco e pouco, aquilo vai entrando dentro de nós. Não há nada a fazer, o talento é como um berlinde na mão, ou se nasce com ele ou não se nasce. O grande Curro Romero (conhece Curro Romero, o imortal toureiro?) tinha uma frase que explicava isto: o que não se pode não se pode e, além disso, é impossível."

Lobo Antunes mudou-se para o Conde Redondo há meia dúzia de anos. Começou por escrever num rés do chão transformado em ateliê de design que pertencia a um primo bastante mais novo (José Maria Nolasco, que, entretanto, morreu). Era um sítio escuro e frio, no inverno chegava a escrever de luvas e casaco. Depois, Tereza Coelho, a sua antiga editora, que também já morreu, descobriu a casa onde hoje vive ("onde estou", prefere dizer) e insistiu em que ele viesse para aqui.

"Comprei esta casa com o dinheiro de uma tradução de um livro que vendi para Espanha."

A casa - num prédio recuperado, com grandes janelas a toda a largura da fachada - não fica longe do Hospital Miguel Bombarda, onde, quando ainda exercia psiquiatria, passava muito do seu tempo. Isso, agora, já não lhe diz nada. Entra e sai da garagem e, quando sai a pé, não passa do virar da esquina (isto não se devia divulgar, mas atravessa a estrada fora da passadeira, quase sem olhar). Quando alguém, seu leitor, se aproxima, fica satisfeito.

"É agradável as pessoas gostarem do nosso trabalho. Temos uma sede infinita de amor. E de reconhecimento. Por muito certos que estejamos do nosso talento e da nossa capacidade de escrever."

E agora que - graças a um superaparelho que lhe "ressuscitou" um ouvido quase morto - ouve melhor, já nem tem a desculpa da surdez para fingir que não ouve.


A velhice

"Devo estar a ficar velho: as Paulas Cristinas têm mais de 20 anos, os Brunos Miguéis já vão nos 15, as Kátias e as Sónias deram lugar a Martas, Catarinas, Marianas. A maior parte dos polícias são mais velhos do que eu. Comecei a gostar de sopa de Nabiças. A apetecer-me voltar mais cedo para casa. A observar, no espelho matinal, desabamentos, rugas imprevistas, a boca entre parêntesis cada vez mais fundos. A ver os meus retratos de criança como se fosse um estranho. A deixar de me preocupar com o futebol, eu que sabia de cor os nomes de todos os jogadores do Benfica (…). A desinteressar-me dos gelados do Santini que o Dinis Machado, de cigarrilha nas gengivas achava peitorais.Se calhar, daqui a pouco, uso um sapato num pé e uma pantufa de xadrez no outro e vou, de bengala, contar os pombos do Príncipe Real que circulam, de mãos atrás das costas como os chefes de repartição, em torno do cedro. Ou jogar sueca, com colegas de boina, na Alameda Afonso Henriques de manilha suspensa no ar, numa atitude de Estátua de Liberdade. Quando der por mim, encontro o meu sorriso na mesinha de cabeceira, a troçar-me, num copo de água, com 32 dentes de plástico. Reconhecerei o meu lugar à mesa pelos frasquinhos dos medicamentos sobre a toalha, que me farão lembrar as bandeiras que os exploradores antigos, vestidos de urso como os automobilistas dos tempos heróicos, cravavam nos gelos polares.Devo estar a ficar velho. E no entanto, sem que me dê conta, ainda me acontece apalpar a algibeira à procura da fisga. Ainda gostava de ter um canivete de madrepérola com sete lâminas, saca-rolhas, tesoura, abre-latas e chave de parafusos. Ainda queria que o meu pai me comprasse na feira de Nelas, um espelhinho com a fotografia da Yvonne de Carlo, em fato de banho, do outro lado. Ainda tenho vontade de escrever o meu nome depois de embaciar o vidro com o hálito.Pensando bem (e digo isto ao espelho), não sou um senhor de idade que conservou o coração de menino. Sou um menino cujo envelope se gastou",

A vida e outras insignificâncias

Os Almeida Lima moravam num segundo andar de risca ao meio e as duas coisas que eu inevitavelmente recebia no dia 25 de Dezembro, ao jantar, depois de um opíparo almoço nos Lobo Antunes e uma alcofa enorme cheia de bugigangas caras, era uma caixinha de cartolina com lápis de cor (nunca esquecerei a marca Viarco)


A pessoa que menos atenção me deu na vida morreu com cerca de sessenta anos, quando eu tinha doze. Idosíssimo, portanto. Era pai da minha mãe, era surdo e, ao contrário de toda a família, que me adorava, não me ligava nenhuma. Nunca me falou, não me lembro de um sorriso seu, quanto mais de uma festa ou um beijo, e não me fazia diferença que não me ligasse nenhuma porque eu também não lhe ligava nenhuma. Filho mais velho de dois filhos mais velhos, bonito, loiro, de olho azul, recebia atenções sem fim de todas as irmãs do meu pai, de todos os irmãos da minha mãe, das minhas avós, claro, atenções e desvelos de toda a gente, enfim, menos dele, e pagava-lhe com prazer na mesma moeda. Lembro-me que, quando eu dizia uma dessas gracinhas parvas das crianças, a minha avó, mulher desse avô, me pedir para repetir mais alto para ele ouvir, como me lembro perfeitamente de repetir mais baixo de propósito, enquanto o meu avô se inclinava para mim de mão em concha no ouvido. A minha avó insistia

– Diz com mais força filho, tem paciência

e eu despachava a frase num murmúrio, já meio de costas para ele, deixando-o, literalmente, de orelha murcha. Ao contrário dos Lobo Antunes, que tinham dinheiro e davam presentes do caraças no Natal

(viviam num casarão e pêras, com jardim e quinta)

os Almeida Lima moravam num segundo andar de risca ao meio e as duas coisas que eu inevitavelmente recebia no dia 25 de Dezembro, ao jantar, depois de um opíparo almoço nos Lobo Antunes e uma alcofa enorme cheia de bugigangas caras, era uma caixinha de cartolina com lápis de cor

(nunca esquecerei a marca Viarco)

cuja ponta levava a vida a partir-se, e uma lanterna de pilhas que não servia para nada

(os lápis Viarco também não serviam para nada porque o bico passava o tempo a partir-se, o que me impediu de me tornar um Velázquez)

a não ser para iluminar quartos iluminados e fazer fosquinhas às pessoas crescidas que terminavam sempre com a frase

– Ó filho acaba lá com as patetices

e comigo a atirar a lanterna para o chão, de pilhas a soltarem-se e a rolarem para debaixo do sofá de onde a empregada, estendida ao comprido nas tábuas, tentava puxá–las em vão com o cabo da vassoura. Penso agora que todos os móveis da casa dos meus pais tinham pilhas por baixo porque, durante a noite, vagos halos azuis, indecisos e trémulos, percorriam vagamente os compartimentos adormecidos.

O meu avô, quando não estava a trabalhar, estava a ler o jornal ou a olhar a parede em frente com um sorriso vago de Buda de loiça. Lá se animava quando morria alguém, porque a minha avó era fã de velórios e arrastava-o para capelas várias, cheias de cadeiras encostadas à parede onde cochichavam velhas, em torno de um prisma de madeira deitado, rodeado de flores, onde se distinguia, imprecisos, um par de mãos amarelas algemadas num terço. Antes de entrarem a minha avó recomendava ao meu avô que se mantivesse calado. Ele em geral não falava, mas nos velórios era atacado por um acesso de gases monumentais que tornavam a cerimónia num lugar de escândalos horríveis. Por exemplo, e para citar alguns casos menos graves, ao tentar consolar um viúvo, abatidíssimo pelo passamento da esposa que lá estava, esticada, no centro de um cone de fitas e flores, bateu-lhe com energia nas costas animando-o com voz sonora

– Não pense mais na morte da bezerra

ou, ao cumprimentar uma senhora que para ali tinha o esposo de lenço na cara, apertou-lhe com energia os dedos

– Os meus sentimentos

a senhora

– Ai

o meu avô

– É a vida

Continuando a apertar-lhe as falanges e a senhora

– Ai

o meu avô, decidido a ajudá-la, prosseguiu no seu cumprimento

– Coragem, coragem

e conseguiu dar-lhe ânimo porque a senhora acabou por soltar um berro de vitela mortalmente ferida

– Não é isso, é que me está a magoar

e, no que se refere a velórios, um terceiro onde ele, sentado ao lado da mesa em que se assinava o nome numa folha, tamborilava no tampo da dita, murmurando

– Mas que grande desgraça

passado um bocadinho

– Mas que grande desgraça

passado outro bocadinho

– Mas que grande desgraça

depois, começando a animar-se com o ritmo

– Mas que grande desgraça

com mais energia

– Mas que grande desgraça

não dito, quase cantando

– Mas que grande desgraça

passando, a pouco e pouco, de canto a berros

– Mas que grande desgraça

– MAS QUE GRANDE DESGRAÇA

– MAS QUE GRANDE DESGRAÇA

até terem de o arrastar para o exterior da câmara ardente onde ele continuava aos berros

– MAS QUE GRANDE DESGRAÇA

alcançando o adro da igreja, onde finalmente se deu conta do seu assombro musical e se calou envergonhadíssimo, com a minha avó já de palmas estendidas para o estrangular na via pública. Pouco depois morreu. A minha mãe não nos introduziu ao velório, se calhar com medo que os meus irmãos e eu, por herança genética, desatássemos a gritar

– MAS QUE GRANDE DESGRAÇA

e os lápis Viarco e as lanternas de pilhas desapareceram da nossa existência. As noites foram-se despindo de halos azuis, os dias de riscos ao acaso nas paredes e nunca mais ninguém nos pediu para contarmos gracinhas requentadas com mais pulmão.

A minha avó tornou-se uma viúva feliz, cheia de amiguetas, que passavam os fins de semana em excursões a Fátima, cochichando segredos, comendo pastéis de massa tenra, suspirando, contentíssimas

– Ai filha

Rezando, já agora, o seu bocadinho no divino santuário e achando o condutor da camioneta que as passeava um rapaz com boa figura que se reparares bem, Teresa, vês que até nem é feio.


Nós

O último abraço de António Lobo Antunes ao irmão João

Não precisávamos de falar. Como ele dizia

– Tu sabes sempre o que eu estou a pensar e eu sei sempre o que tu estás a pensar

mas muito pouco tempo antes de morrer veio ter comigo e passámos a tarde juntos, sentados lado a lado no sofá. Foi ele quem falou quase sempre, eu pouco abri a boca.

Mostrou-me os braços, o corpo

– Estou miserável

sabia que ia morrer dali a nada e comportou-se com a extraordinária coragem do costume. Coragem, dignidade e pudor. A certa altura

– Para onde queres ir quando morreres?

respondi

– Para os Jerónimos, naturalmente.

Ficou uns minutos calado e depois

– Tu acreditas na eternidade.

Disse-lhe

– Tu também.

Novo silêncio.

– Eu quero ser cremado e que ponham as cinzas na serra, voltado para a Praia das Maçãs.

Novo silêncio. A seguir

– Vou morrer primeiro que tu. Vou morrer agora.

Mais silêncio. Eu

– Ganhei-te outra vez.

ele

– É.

Ele

Ganhamos sempre os dois.

Eu

– Porque é que a gente gosta tanto um do outro?

Ele silêncio antes de

– Se me voltas a falar de amor vou-me embora.

eu

– Sabes onde é a porta.

Mas não voltámos a falar de amor. Para quê? Estava ali todo. Depois quis ver os livros

– Para aí vinte mil, não?

eu

– Mais ou menos, incluindo os muitos que encontrei numa livraria de segunda mão, assinados por ti.

Silêncio. Eu

– Não podia suportar a ideia de que outras pessoas tivessem em casa os livros do meu irmão.

Gesto vago. Depois ele

– António

e silêncio, depois eu

– João

e silêncio. Ou seja um diálogo de amor compridíssimo. Depois

– Se os pais cá estivessem

e esta frase fez-me compreender melhor a sua imensa dor. A mãe para quem a inteligência, num homem, era a forma suprema de sensualidade. E um rabo grande a coisa mais feia deste mundo. Um homem inteligente, na sua opinião, era atraentíssimo.

– Um homem bonito e estúpido ao fim de um quarto de hora não existe

e ainda bem porque, assim, talvez tenhamos algumas chances com ela. A mãe, ainda

– Desafio qualquer mulher no mundo a ter filhos tão inteligentes como os meus.

E ele continuou a falar:

– Depois eu fui para Nova Iorque e tu para África.

Numa altura, depois de África, em que ele estava a sofrer muito meti-me num avião e fui para casa dele. Durante o dia ele trabalhava no hospital e eu ficava às voltas com o Fado Alexandrino. Depois jantávamos juntos e comíamos uns gelados enormes que ele trazia a vermos os play-offs do basquete.

Um de nós

– E jogam com humor

o que é tão raro no desporto. Aos sábados um bocado numa discoteca. Camisas cheias de baton. A certa altura olhou, do sofá, para a estante mais próxima: Um livro de Marcel Pagnol. Ele

– A nossa infância toda.

E eu com vontade de tocar-lhe. Claro que não toquei. As suas mãos, que conhecia tão bem, poisadas nos joelhos. Embora impassíveis estávamos demasiado emocionados.

Ele

– De qualquer modo não nos perdemos um ao outro

eu, depois de um silêncio compridíssimo

– Nunca nos perdemos, não é agora que isso vai acontecer.

Ele

– Vou chamar um taxi.

Silêncio.

Ele

– Acompanhas-me lá abaixo?

Entre a casa e a rua uma distância grande. Era o fim do dia, já não estava muito sol. O taxi à espera no passeio. O chofer, a quem ele operara a mãe, veio abrir-lhe a porta do carro. Ele voltou-se para mim e disse o meu nome. Eu aproximei-me dele e disse o seu. Abraçámo-nos com muita força e, de repente, começou a chorar. Só sentia ossos nas minhas mãos. Mas nada de mariquices, claro, sobretudo nada de mariquices.

Ele

– Não digas a ninguém que chorei.

E sentou-se no banco ao lado do chofer, sem olhar para mim. Não olhámos um para o outro, aliás, mas nunca nos vimos tão bem. O carro foi-se embora. Fiquei na borda do passeio até que desapareceu. E então, de mãos nos bolsos, voltei para casa. Nunca houve um abraço assim no mundo.


“Todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos”

António Lobo Antunes detesta a palavra “viral”, fica arrepiado quando lhe fazem o gesto das aspas com dois dedinhos no ar. No seu último romance, Natureza dos Deuses, em que acompanha a ascensão e queda de uma família de banqueiros que prefere nunca nomear (o leitor se quiser pode adivinhar), Antunes vinga-se. Até da clareza, da cronologia clássica, dos cânones da sintaxe. A força torrencial da linguagem alaga tudo, num emaranhado de vozes, obsessivas mas nunca histéricas, quase sempre perplexas, que se sobrepõem, atropelam, sem querer saber do espaço e do tempo, num “delírio caótico”. Como uma partitura musical, onde a melodia se perde e regressa ao refrão. Ou como um ecrã com várias janelas abertas, em que um leitor, ultraconcentrado, e com olhos de camaleão, assiste a tudo, em simultâneo. Logo ele que nem sabe abrir um computador (continua a escrever em caligrafia de formigueiro miniatural) e recusa o telemóvel. Porque, como dizia o (Umberto) Eco: “O telemóvel só serve a três classes de pessoas: os médicos ou os bombeiros; as pessoas portadoras de doenças, como diabetes; e os adúlteros.”

Costuma ser o escritor da marquise e do naperon, mas desta vez detém-se numa família de milionários. Porquê?

Como dizia Flaubert, “é preciso vasculhar toda a vida social para ser um verdadeiro romancista, visto que o romance é a história privada das nações”.

Vasculhou muito?

Não, porque não sou do século dele.

Os ricos do seu livro são tratados como sádicos na cama, que fazem das mulheres “os seus palhaços” e os empregados emprestam a mulher ao patrão…

Eu assisti tanto a isso na vida real, sobretudo no mundo dos ricos. Homens a oferecerem as próprias mulheres. Fitzgerald dizia a Hemingway que os ricos eram uma “espécie diferente”, e o Hemingway “pois são, têm mais dinheiro”. Mas não é só isso…

O desprezo?

Não desprezam, ignoram… Aqueles a que eles chamam “as criaturas”… A ambição de poder sempre me assombrou. Eu só queria fazer livros bons.

Onde se sentiu mais em casa: nos meios intelectuais, nos salões literários, na tropa, no hospital, quando era médico?

Sei lá. Faz-me cada pergunta… Frequento pouco os meios literários… Mas é quando estou com pessoas de quem gosto. Passei a infância num bairro pobre que era Benfica. Estou muito ligado a essas pessoas. Mais do que supunha. Apanhei uma tuberculose porque passava os dias em casa do sapateiro e de uns vizinhos que nós tínhamos. Era gente muito pobre. A minha mãe dizia que tinha herdado isso do meu pai: só gostava dos pobres, mas sentia-me tão bem com eles. Quando ia para a Beira Alta e se tomava banho numa selha, era tão bom… Eu estava sempre a transbordar de ternura, ainda estou, só que escondo. Gosto de pessoas que tenham gostos diferentes de mim. Custa-me quando são do Sporting, mas enfim, ninguém é perfeito…

Passou pela guerra, por três cancros, agora a morte de um irmão e da sua mãe… E reverteu muito do seu sofrimento para a escrita?

A gente não inventa nada. Estes dois anos foram terríveis, e agora o cancro do meu irmão João, que aguenta tudo com uma dignidade, uma coragem, que eu sempre encontrei nos cancerosos, sem uma única queixa… Quando passei 19 dias no hospital lembrava-me do Proust, sempre a olhar para a janela à espera que fosse dia como se o dia me viesse salvar de alguma coisa, não me salvava de nada. Tenho passado muito. Mas começamos a relativizar muita coisa… Eu tenho uma ideia sobre o meu trabalho… Posso dizer em off?

Preferia que dissesse em on…

Eu acho que nunca ninguém escreveu como eu em Portugal. Mas é só uma opinião.

Já atingiu um patamar em que pode escrever como bem entender e até dizer o que lhe apetece, sem se preocupar com as consequências?

Está a pensar no Fernando Pessoa e de eu ter dito que ele não fodia?

Por exemplo.

Isto está cheio de patetas, as perguntas nunca são bem aquelas e as respostas também nunca são bem aquelas. Primeiro era uma boutade. Foi num almoço, estávamos a gozar, e de facto eu acho mesmo que ele teria sido melhor poeta se tivesse feito amor… Como se pode viver sem fazer amor ? Não entendo. Mas só um palerma é que me vai atacar por eu dizer isso. Mas não. Não houve medíocre que não viesse morder. Não gosto da Mensagem, é evidente, como acho que o Livro do Desassossego é um conjunto de banalidades e lugares-comuns. Não sei para que estamos a falar do Fernando Pessoa, coitado, não tem culpa nenhuma… Isto é para dar matéria aos idiotas, para me virem morder os calcanhares, não chegam mais alto…

Pessoa e Eça são intocáveis?

Pois, e isso é extraordinário. Achava Eça um romancista extraordinário, já não acho. Tenho admiração pelo Antero e pelo Herculano. O meu pai citava Herculano: “Por meia dúzia de moedas Garrett é capaz de todas as porcarias, menos de uma frase mal escrita.” Não é bonito?

É.

Era um foco de discussão entre mim e o Zé [Cardoso Pires], ele achava que o Herculano era um chato. O que se faz agora é muito fraco, nem no estrangeiro há grandes escritores.

Os génios aparecem ciclicamente?

Pois, aparecem assim por revoadas. O milagre do século XIX, a quantidade de génios… só na Rússia havia dez ao mesmo tempo… [desfia os nomes com pronúncia russa], como em França e em Inglaterra. Agora não há. No século XX: Faulkner, Hemingway, Proust, Céline, Fitzgerald. O Thomas Mann é bom, mas chateia-me. O Musil chateia-me…

E o Joyce?

Admiro a proeza, mas às vezes penso se não será a proeza pela proeza.

O que encontra num livro bom?

O charme. Qualquer coisa indefinível que certos livros têm, certos homens têm, certas mulheres têm. É que não é ser bom tecnicamente. Têm que ter charme, não sei explicar. É qualquer coisa que nos faz tornar no verso do Neruda, “como uma onda para a praia na tua direção vai o meu corpo”. E depois como se racionaliza sobre emoções? Gosto porque gosto, porque era ele, porque era eu. As amizades são assim, como o amor. A gente conhece uma pessoa e fica amiga de infância. As minhas amizades foram sempre fulminantes, e depois duram para a vida, depois morrem antes de mim. É uma traição horrível um amigo morrer.

No seu livro diz: “A velhice não é roubarem-nos o futuro, é terem-nos roubado o passado”…

Tem a ver com a memória. E sem memória não há imaginação. Aquilo que as pessoas chamam imaginação não é mais do que a maneira como nós arranjamos e desarranjamos os acontecimentos da vida. Nada se inventa. Pode-se misturar as coisas, ou mostrar só metade, mas todos os livros falam da mesma coisa. E todos os escritores são uniformemente infelizes. Porque se fossem felizes não tinham necessidade de passar 16 horas por dia a escrever. Há uma dor com que se nasce… Os artistas sofrem muito.

Não é uma pessoa alegre?

Conhece pessoas alegres?

Conheço. Do seu livro, também: “Este atraso mental das pessoas felizes que dá vontade de corrigir ao estalo, o que vale é que passa depressa.”

Isso é alguém a falar lá dentro. Não tenho de subscrever isso [risos]. As taxas de suicídio entre os humoristas são muito grandes… Um sorriso é a tal lágrima entre parêntesis.

Já o vi a dançar, a cantar alto, pareceu-me feliz…

Estava a fazer muita cerimónia. É tão raro não haver inveja neste meio. No mundo provinciano, pequeno e saloio como é o meio literário em Portugal. Há muito poucas pessoas que me possam interessar e respeitar aqui. Tirando o Eduardo Lourenço. Rimo-nos imenso, ele tem muito humor. O Zé também, mas havia nele sempre uma amargura.

Uma vez disse que ninguém podia fazer um bom livro antes dos 24…

Ai, isso também gerou polémica?

Um bocadinho.

É verdade, não se pode escrever um bom romance antes de ter vivido. Poesia pode ser. Olhe, eu com essa idade só escrevia merda. Nunca tive pressa em publicar. Essa qualidade eu tenho. Não percebo porque isso causa polémica… mas cada vez que abro a boca…

Mas não faz de propósito?

Claro que não. Agora tudo tremelica. Há para aí umas criaturas, por causa das relações sexuais e poesias, ficaram insultuosos. Não era nada disso, aquilo passou-se num contexto diferente, quero lá saber se o homem fodeu ou não…

Tem teorias acerca disso?

Tenho lá… Olhe a Santa Teresa d’Ávila…

Também era virgem.

Não sei o que é pior, se isso, se aturar um homem… Deve ser terrível. Os homens não merecem as mulheres, reduzem tudo à genitalidade. Quando lhes deveria dar muito mais prazer estar sentado no sofá, de mãos dadas, a ver uma novela, do que um em cima do outro a esbracejar. O verdadeiro prazer vem do amor, que é uma coisa em que ninguém é bom, ninguém é mau. Tive de fazer muita sexologia… E o medo que os homens têm das mulheres? E como nós, homens, ligamos tudo à potência… Já comeste aquela gaja, e esta, e a outra?

Nunca entrou nesse registo?

Provavelmente entrei, não sou melhor que os outros. E no fundo os homens andam sempre à procura de uma outra coisa, andam tão perdidos como elas, querem ser amados, querem ser protegidos, gostados. Temos a ilusão de que assim afastamos a morte, porque ninguém está preparado para morrer.

Houve um cirurgião que lhe agarrou a mão durante a anestesia…

Foi um ato de amor, nem imagina como foi importante para mim. Há mãos de homem que apertam bem. As mulheres são muito mais exigentes. “O que fizeste da tua irmã gémea que abandonaste ao nascer?” Se os homens conseguissem não abandonar a irmã gémea ao nascer… O sexo não é o mais importante numa relação. A gente entrar um no outro numa relação, sem precisar de recorrer a esse apêndice. Eu já não sou um homem bonito.

Dá assim tanta importância a isso?

Ai, eu gostava de ser bonito. Fazer uma cara sorrir para mim. Mas sob esse aspeto convivo bem comigo. O meu medo é começar a escrever porcarias e não ter consciência disso, o Simenon chegou aos 70 e, como ele dizia, resolveu partir o lápis.

Continua a ler muito?

Claro. Olhe, o primeiro livro que me fez chorar foi o Love Story [de Erich Segal], emprestado por um sargento, na guerra. Chorei como uma Madalena. Porque todos nós temos uma criada de servir cá dentro, no sentido antigo da palavra. Todos nós somos muito pirosos.

Mas ainda lê os livros que a criada de servir que tem dentro de si lhe pede?

Às vezes, não sei se são bons ou maus. Um meu editor francês citava muitas vezes a frase de um general veneziano do século XVI: “É preciso agarrar a oportunidade pelos cabelos, mas não esquecer que ela é careca.” A gente a escrever é assim, eu sinto-me um pobre… Gosto muito de ler, é um prazer enorme. O meu pai estimulou muito a leitura aos filhos e a minha mãe deve ser a única mulher que eu conheço que leu o Proust duas vezes.

Porque não disse a “única pessoa”? Dito assim pode parecer um comentário misógino…

Acha que eu falo mal das mulheres? Deus me livre. Isso era dantes, não era? Eu devo tanto às mulheres, à minha avó, à minha mãe… Estava aqui sozinho, a escrever, e de repente sai-me, sem eu dar conta, um berro: “Quero a minha mãe!” Todos os homens quando estão aflitos querem a mãe, tenham a idade que tiverem. Vi morrer tanta gente nos hospitais e nunca vi um homem chamar pelo pai. É espantoso. Velhos e doentes com mais de cem anos: “quero a minha mãezinha”. Com mais de cem anos continuam a chamar pela mãe. É extraordinário.

Mas uma coisa são ‘as mulheres’, outra as nossas mães, irmãs…

Não tenho ideia de as tratar mal. Só tenho filhas, as pessoas que mais me marcaram foram todas mulheres, como é que eu poderia? O livro que estou a escrever agora anda todo à roda de uma mulher com Alzheimer, é também um desafio técnico, como é que eu vou descrever uma mulher que vai perdendo a memória? Sinto-me mais à vontade com mulheres. Ou então são elas que vêm ter comigo nos meus livros, sentam-se à boca de cena e começam a falar.

Dá ideia de que tem um ouvido absoluto para captar as marcas de oralidade, mas também repara tanto nos detalhes, nos pequenos pormenores… Também deve ter um espécie de olhar absoluto…

É só trabalho. Sou capaz, sem olhar para si, de dizer como está vestida, de cima abaixo. Se se tiver aberto aos outros, as coisas entram dentro de nós. E as pessoas são tão interessantes, mas depois há os chatos.

Fala dos políticos?

Fui infeliz durante este governo de direita, os erros, a maneira de falar, a arrogância, a ambição social que se notava naquela gente toda, e nos tipos que estão por detrás… É uma chatice, os alfaiates mudaram isto, porque dantes percebia-se quem eram as pessoas com dinheiro, agora vestem-se todos de igual.

Ficou contente com o acordo da esquerda?

Então não fiquei? Não pertenço a nenhum partido, mas estou mais à esquerda do partido socialista. Mas isso também não é importante: o pai do meu pai era conservador, salazarista, monárquico e era a pessoa mais democrata, bondosa e tolerante que eu conheci. Continuo a simpatizar com o Louçã. Gostei do Álvaro [Cunhal], era um homem irresistível, exceto quando se punha a falar de política, aí era impossível. Mas a falar de Bruegel era fascinante. A Catarina Martins tem uma inteligência cândida, que é uma coisa de que eu gosto. Uma cara, um ar e convicção que me é agradável. Parece-me a mim pureza. Oxalá não esteja enganado.


Tudo cinzento na janela

Hoje jantar em casa dos meus pais sem o Pedro, não faz sentido jantar em casa dos meus pais sem o Pedro. O lugar dele é à direita da mãe. Quem o ocupará? Eu sento-me na cadeira do meu pai e o mundo é muito diferente visto dali. Normalmente pouco digo, pouco oiço. Hoje penso que vou ouvir-te o tempo todo, mais o que existe nos intervalos das frases, ou seja, o principal


Tudo cinzento na janela, árvores, casas, tudo triste. Nem uma pessoa na rua, nem um bicho. Frio. E eu sentado nesta mesa, à espera de uma crónica que não aparece. Vou enchendo a página de palavras na esperança de que alguma salte como um peixe. Não salta. Ficam no fundo do papel, escondidas, nem a sombra lhes vejo. Se calhar acabaram-se, as palavras. Penso no Pedro. Desde que morreu, no dia vinte e um de dezembro, nem há um mês ainda, é quase só o que faço, pensar nele. Não estou a escrever, estou a acabar de corrigir um livro, que é um trabalho diferente, posso fazer com o Pedro à beirinha. Aliás ele sempre foi calado, sou eu que pago a conversa. Estamos aqui, estamos em Torres Novas, estamos noutros sítios por onde andámos juntos e, como quase sempre, o nosso diálogo é feito de silêncios, com uma frase ocasional de vez em quando. Custa-me redigir isto, mas lá vou coxeando. Tudo cinzento na janela. Há anos, estávamos sozinhos os dois, à noite, na rua, o Pedro caiu em coma à minha frente. Era um derrame na cabeça, o João operou-o e salvou-se. Desta vez morreu na voz do João, que recebeu a notícia pelo telefone e, de repente, o dia principiou a coxear. Até hoje nem um deixou de coxear. Eu não percebo a morte. Provavelmente também não percebo a vida. Existirá alguma coisa para perceber? E, no que se refere a isto ter acontecido ao meu irmão, então aí não percebo nada. Árvores, casas, tudo triste, já se inventou coisa pior do que janeiro? Nem uma pessoa na rua, nem um bicho. Frio. Se uma pontinha de sol, ao menos. Hoje jantar em casa dos meus pais sem o Pedro, não faz sentido jantar em casa dos meus pais sem o Pedro. O lugar dele é à direita da mãe. Quem o ocupará? Eu sento-me na cadeira do meu pai e o mundo é muito diferente visto dali. Normalmente pouco digo, pouco oiço. Hoje penso que vou ouvir-te o tempo todo, mais o que existe nos intervalos das frases, ou seja, o principal. E o principal, o único, é a tua ausência. O que me é insuportável é que a tua ausência vai continuar a existir. Para sempre. E é muito difícil pensar que não estarei mais contigo.

A gente, claro, conhece-se desde que tu nasceste. Temos o mesmo sangue. Quando te trouxeram para casa, numa alcofa, eu era uma criança de três anos e estava doente dos pulmões. Tuberculose. Lembro-me de te mostrarem a mim e eu ficar a arder de ciúmes, porque me davam menos atenção. Recordo-me tão bem disso. A arder de ciúmes, furioso. Recordo-me e espanto-me porque não sou ciumento. Também não sou invejoso. Algumas qualidades havia de ter, caramba. Nem são qualidades sequer, quando muito ausência de defeitos. Pedro. Moreno. De cabelo escuro, ao contrário dos teus irmãos loiros e de olhos azuis, os já nascidos e os que viriam a nascer. E depois, a pouco e pouco

(tudo cinzento na janela, árvores, casas, tudo triste)

uma grande ligação entre nós foi crescendo. Possuo cartas tuas da guerra, cheias de amor contido. Foste primeiro do que eu, voltaste antes da minha partida. Depois conheci uma rapariga e levei-te para ta apresentar. Achei que te calhava bem. Calhou. A gaita é a vida inteira durar tão pouco tempo.

Começa a anoitecer agora. Nem uma janela acesa no outro lado da rua. Eu aqui a fazer isto. Trago tanto para te contar que não consigo contar nada, tanto para contar de ti que não consigo contar nada. Aqui entre nós para quê? Tu sabes tudo o que eu poderia escrever e, o resto, a quem interessa? E depois existem coisas só nossas, íntimas, secretas, sem interesse para os outros, creio. E o que já não podemos partilhar porque morreste para sempre, porque vou morrer para sempre. Ficam aqueles que prolongarão o nosso sangue, cada vez mais diluído no sangue dos outros. Até o nosso sangue, que era um só, desaparecerá. E, depois, nada.

Tanto frio, Pedro, hoje. Já não distingo as árvores, distingo, na rua, um candeeiro desfocado. Só um. Ambos moramos em sítios feios e tristes, nesta cidade hoje feia e triste. É quinta-feira. Dia de jantar nos pais. Não te vou encontrar e, todavia, sei que passarei o tempo à tua espera.

– Porque carga de água o Pedro não veio hoje, ele que vinha sempre?

E não vou entender. E ficarei incapaz de entender. E ir-me embora sem entender. Nem sequer que morreste entenderei. Até ao fim dos meus dias não entenderei nunca. Diz-me lá uma coisa: achas que isto faz algum sentido? Achas que isto é justo? O que era cinzento na janela negro agora. Não faz sentido nem é justo. E não me acenarás do teu carro à medida que te afastas, não fazes a curva nem te afastas de mim. Não és. Não voltarás a ser. E, pior do que tudo, realmente o pior de tudo, acabará a tua mão no meu ombro, acabou a tua mão no meu ombro. Ou fui eu, mano, que deixei te ter ombro?


Adeus

Não te culpo seja do que for porque não tens culpa seja do que for. E só posso agradecer o que me deste. Uns meses felizes, ou quase felizes, ou com tudo para serem felizes é muito. Para mim é muito


Não me procures mais. Para quê? Já não sou, já não estou, já não serei. Fui o quê, aliás? Uma companhia agradável, uma pessoa com quem gostavas de estar: palavras tuas. Alguns beijos, algumas carícias, dedos que se encontravam, mas eu queria-te para além do corpo. Queria tudo e não podias dar-me tudo. Houve alturas em que te sentia hesitante, e depois a muralha de novo, os tijolos do teu medo, da tua falta de paixão, entre nós. Isso tenho que agradecer-te: foste sempre honesto comigo. Mas a tua divisão interior impedia-te de te aproximares. E não vieste, completamente, nunca, conforme nunca escutei de ti a palavra amor. Outras palavras que quase queriam dizer o mesmo porém não dizias. Não dizias, não dirás e, mesmo que o digas agora, não estarei lá para ouvir. Claro que vou ter saudades, claro que vou sentir muito a tua falta, muito e durante muito tempo. Mas quiseste assim e eu, que remédio, aceitei. O que podia fazer senão aceitar? Dei-te o melhor que tinha. Em vão.

– Ajuda-me

insistias tu, e tentei com todas as forças, e perdi. É difícil aceitar que perdi mas perdi. Agora? Durante uns tempos vou ficar assim, perdida. Depois não faço a menor ideia do que acontecerá. Está fora de questão voltar, fora de questão pedir ainda. Não se trata de orgulho sequer, trata-se de inutilidade. É preciso aceitar o fim das coisas e eu, que remédio, aceito. Aceito. Aceito. É pouco natural que um dia nos encontremos, as nossas vidas são tão diferentes, não acredito que nos cruzemos mais. Não te culpo seja do que for porque não tens culpa seja do que for. E só posso agradecer o que me deste. Uns meses felizes, ou quase felizes, ou com tudo para serem felizes é muito. Para mim é muito. E estou-te tão grata por isso e por ter acreditado numa vida inteira contigo. Não me dói que não seja: dói-me que tenhamos perdido, dói-me o gosto insuportável da derrota. Doem-me os sítios onde estivemos, dói-me a ausência do teu sorriso. Isso sei que me vai doer para sempre. Desejo, do coração, a tua felicidade. E que me esqueças, não é assim tão difícil, vais ver. Daqui a umas semanas estarás bem. Livre. Sem inquietações nem perguntas. E isso já vai ser tão bom. Eu fico por aí. Pode ser que de quando em quando oiças por acaso o meu nome e um estremecimentozinho qualquer numa qualquer parte de ti, que felizmente passará depressa. E, depois, mais nada. Ou esse sorriso passageiro que a gente dá às recordações defuntas. Porque não passarei de uma recordação defunta, cada vez mais pálida na tua memória até deixar de existir por fim. E, ao não existir, nunca existi. Se te perguntarem

– Conheceste?

a resposta sincera é

– Não tenho a certeza mas creio que conheci

e depois, é claro, pensa-se noutra coisa. Não temos assim tanto espaço cá dentro para o ocupar com recordações mortas. Há coisas muito mais importantes do que uma pobre sombra que tenta sorrir e não quiseste guardar.